Meu
nome é Adam Oliver. Completei dezesseis anos em agosto do ano passado.
Atualmente estou cursando a 2ª série do ensino
médio no colégio Estadual do Jardim Independência,
uma escola pública como várias outras espalhadas pela
pequena cidade de Sarandi, no interior do Paraná.
Às
vezes pessoas me perguntam se gosto da fase de adolescente, ou de estar
terminando o colegial. Minha resposta seria sim até há
um mês, antes de meu melhor amigo, Deyvid Willart, ser obrigado pela madrasta a estudar em um colégio
interno fora do país. Ela o mandou para longe após o
pai dele falecer.
Eu considerava Deyvid um irmão. Como vocês
acham que foi minha reação? Eu quis pular no pescoço daquela vadia. Ela não
tinha o direito de fazer aquilo. Mas enfim, minha vida ficou chata sem Deyvid. Alguém pode me perguntar: mas
você não tinha outros amigos?
Na
verdade, não. Eu tinha colegas de escola, mas
nada tão concreto como a amizade que existia entre
Deyvid e eu. Nossa afinidade começou quando
ainda cursávamos o primário, na metade da 3ª série. Lembro-me como se fosse hoje daquele garoto novato que estava sendo
desprezado por todos só porque seu cabelo era de uma cor anormal: cinza. Fui o único a me aproximar dele, o que eu não
sabia era que esse companheirismo permaneceria
até quase o fim do ensino médio.
Quando
tínhamos treze anos nos inscrevemos em um treino
de boxe. Somos os únicos a permanecer na
academia até hoje. Bom, na verdade, hoje, só eu
permaneço. Existem outros lutadores na mesma categoria que a nossa, e até também
com a mesma idade, mas o treinador tem mais confiança em mim do que neles, pois desde que Deyvid e eu nos matriculamos na
academia sempre realizamos os treinos da maneira
que o treinador ordena, já o restante da molecada, não, eles têm o hábito de levar tudo na brincadeira. Quando, por exemplo, Deyvid e eu brigamos com Andrew e Jimmy, o treinador deu a razão para nós. É óbvio que ele
sabia que estávamos certos.
Já
no treino de natação as coisas são mais calmas, não existe ninguém querendo
arrancar nossa cabeça. Nossos colegas de nado
são mais velhos que a gente, então não se envolvem muito conosco. No colégio
tudo era tranquilo, principalmente nos treinos
de basquete, ninguém se manifestava contra nós,
pois o técnico nomeou Deyvid e eu como co-capitães pelo mesmo motivo que no boxe. Nesse caso, os privilégios eram nossos.
Vocês
podem pensar que o fato de praticarmos três esportes é
mentira, mas é a pura verdade, e digo mais:
temos energia suficiente para praticarmos outros dois
ainda. Vocês entenderão o porquê mais adiante.
***
Foi
numa quinta-feira que recebi um bilhete com
informações sobre uma festa que aconteceria no fim de semana. Joice, também estudante do Independência, era quem estava
preparando o evento, ela distribuía os bilhetes na saída do colégio junto com três amigas: Julia,
Roberta e Cássia. Uma multidão de pessoas não convidadas se formava em volta
das garotas, alguns até imploravam por um convite. No fim, elas acabavam
cedendo.
Eu
esperava que tudo ocorresse como nas outras festas
em que já fui. Mas, cara, como eu estava errado!
Foi a partir desse dia que as coisas começaram a
mudar em minha vida. Não sei se a situação mudaria se Deyvid estivesse comigo,
mas pelo menos eu poderia contar com a ajuda de um amigo.
Para
não chegar à festa sozinho, combinei de ir com alguns jogadores do time de basquete que
também foram convidados pelas garotas. Matheus pegou o carro do pai dele escondido
para irmos à balada, disse que queria impressionar uma garota de quem estava a fim. Cássia, a
menina que ajudava Joice na distribuição dos convites, era o alvo dele.
Chegamos
à casa de Joice com o som do carro estrondando na música
“Give It To Me”, de Justin Timberlake, Timbaland
e Nelly Furtado. Essa música
era o sucesso do
momento, todos na casa nos olharam quando saímos do carro. Algumas garotas
correram até nós antes de passarmos pelo portão.
-
Eu não sabia que você dirigia - disse uma delas a Matheus.
-
Sabe como é, né! - Respondeu ele, com a pele
começando a corar.
A
casa da garota estava completamente lotada, havia gente por todos os lados,
algumas pessoas estavam na piscina, outras no
gramado ou dentro da casa. Uma coisa que notei em comum entre elas: todas seguravam um copo de plástico, sem dúvida, cheio de bebida alcoólica. Ignorei as garotas
que vieram até nós e entrei no quintal, sentando-me em uma
mesa ao lado da piscina. Minha intenção era apenas beber.
Garrafas
de cerveja ocupavam o maior espaço por ali. Peguei um copo descartável e me
servi. Eu não era muito fã de cerveja, mas já era o suficiente para me
distrair.
Quando
eu enchia meu quarto ou quinto copo de cerveja, avistei uma pessoa atravessando
o portão. Era Jennifer Griffin junto a seu namorado, Kevin. Os dois me
encararam, se olharam por um instante e continuaram caminhando em minha
direção.
-
Oi, Adam, - cumprimentou Jennifer, andando na frente do namorado. Estavam de
mãos dadas.
-
Oi - respondi o básico. Confesso que já estava levemente embriagado.
Kevin
fez questão de esbarrar em meu ombro. Ele se sentia ameaçado em relação a mim.
Era o que eu pensava, pelo menos.
Jennifer
mora em frente à minha casa desde que eu tinha sete anos. Às vezes os pais dela
tomavam conta de mim quando minha mãe precisava trabalhar no domingo. Sendo
assim, uma amizade foi crescendo entre ela e eu. O que não sabíamos era que o
sentimento que tínhamos um pelo outro não era apenas amizade. Nosso primeiro
beijo aconteceu em uma festa de aniversário de um primo dela quando tínhamos
treze anos. Porém, após esse acontecido, nunca mais nos falamos, um fato que não entendo até
hoje. De vez em quando trocamos apenas um “oi”,
se por acaso nos encontramos, e nada além disso. Atualmente ela namora o
imbecil do Kevin, o cara que começou a faculdade de educação física esse ano e
que gosta de arrumar confusão comigo.
-
Cuidado aí - resmungou ele após esbarrar em mim.
-
Cuidado? Foi você quem esbarrou em mim - reclamei,
sendo atacado por uma leve tontura.
-
Como é? - Retrucou.
-
Kevin! - Jennifer o advertiu puxando o braço dele.
- Vai começar?
O
rapaz fez cara de desgosto, mas voltou a andar atrás dela.
-
Ah, eu estava torcendo para que vocês caíssem no soco - disse Cezar. - Queria ver Kevin tomar
uma surra de você.
-
O que te faz pensar que eu daria uma surra nele? -Perguntei.
-
Cara, - falou ele se apoiando em mim, senti seu hálito ruim
de cerveja, mas acredito que não estava diferente
dele - você luta boxe e ele era só um jogador de futebol do colégio. Você o
massacraria.
-
Faço boxe por esporte, não para bater nas pessoas - expliquei.
-
Tanto faz - disse Cezar, antes de se jogar na piscina.
Após
me encontrar com Jennifer e Kevin e falar com Cezar, me juntei ao pessoal do basquete, comecei a tomar todas, jogamos
o jogo de “eu nunca fiz”, tentávamos acertar o copo um dos outros usando uma
bolinha de ping-pong. Curtimos realmente a festa, a última
coisa que lembro é de estar sendo arrastado para um dos quartos da casa por uma garota.
Acordei
com Joice me cutucando com o pé.
-
Acorda, véi, houve um imprevisto, meus pais chegarão daqui a pouco e eles não
podem te ver aqui. Se isso acontecer, me matam.
-
Que horas são? - Questionei desorientado. Levantei com uma forte dor de cabeça,
percebi que minha camisa desaparecera, e meu tênis, também.
-
8h e 45 minutos - respondeu a garota.
Desci
as escadas correndo, encontrei com várias
garotas no andar abaixo, todas fazendo algum serviço: algumas lavavam a louça,
outras recolhiam as garrafas de cerveja, outras pegavam os copos descartáveis
espalhados pelo quintal.
Ignorei
todas elas e até mesmo a dor insuportável que
zumbia em minha cabeça. Saí da casa de Joice sem ao menos encontrar minha
camisa, eu tinha que chegar o quanto antes em casa, caso
contrário, minha mãe ficaria furiosa.
A
questão foi que não deu nem tempo de atravessar a rua, um Civic preto buzinou
atrás de mim. Era minha mãe.
-
Entre agora! - Disse ela colocando a cabeça para fora do carro. Fiz o que ela
mandou em silêncio. - Você sabe que horas são?
-
6h e 20minutos? - Perguntei, fingindo não saber.
-
Não, são 9 horas da manhã - respondeu ela. Minha cabeça girava constantemente.
Passei a mão no rosto para ver se aliviava.
-
Você bebeu, né? - Percebeu. - Sabe que violou as regras, não sabe? Vai ficar um mês sem sair à noite, e quando sair,
vai me ligar para informar onde está. Ok?
Apenas
balancei a cabeça em sentido afirmativo. Foi a pior coisa que fiz. Tudo girou
dentro do carro. Pensei que vomitaria ali mesmo, mas contive a ânsia.
Em
casa fui direto para o banheiro do meu quarto, vomitei tudo que eu tomara na
noite passada, pensei que até meu estômago
sairia junto ao vômito. Após isso deslizei para
debaixo do chuveiro, talvez um banho melhorasse a ressaca. Fiquei em torno de
trinta minutos naquele banheiro. Quando saí, escovei os
dentes, minha boca estava amarga. Fiquei alguns minutos olhando meu
reflexo no espelho, a dor de cabeça não desaparecera, e tudo indicava que iria piorar. De repente,
do nada, senti uma sensação estranha, era como se uma corrente elétrica
estivesse percorrendo todo meu corpo. Com os olhos ainda fixos no espelho enquanto sentia isso, vi algo estranho
acontecer. Meus olhos mudaram de cor, ficaram azuis. Um azul anil bem nítido.
Dei um passo para trás assustado, piscando várias
vezes para ver se não era ilusão. Aproximei-me do espelho para observar melhor.
Era verdade. E ficava cada vez mais azul...