Acordei
com o corpo encharcado de suor, coloquei a mão no peito após me lembrar do
sonho. Foi a pior coisa que fiz naquele momento, doeu demais. Puxei a mão no
exato momento, ela estava com manchas de sangue.
Olhei para meu peito, um círculo de sangue
destacava-se em minha pele na região onde se localiza o coração.
Corri
para o banheiro, molhei uma toalha e coloquei na ferida, ardeu um pouco, mas
limpou o machucado, deixando apenas uma cicatriz. Observei a marca pelo espelho,
parecia que alguém havia me acertado com uma fivela daquelas que usam para
marcar bois.
O
estranho foi que, num piscar de olhos, aquilo passou de uma cicatriz para uma
tatuagem. Era uma tatoo de tribal em
forma de círculo. Reparei que meus olhos estavam
azuis outra vez. E eu começara a sentir aquela incrível sensação de
eletricidade.
Toquei
a cicatriz com o dedo indicador, temendo que doesse, porém, não doeu. Coloquei
toda a palma da mão na tatuagem, ao mesmo tempo imaginava: como isso era
possível? O que eu diria a minha mãe sobre a tatuagem? “Olha, mãe, essa
tatuagem apareceu no meu peito enquanto eu dormia”. Nunca ela acreditaria
nisso.
Voltei
a olhar o símbolo, eu não era muito fã de tatuagem, mas até que eu tinha
gostado daquela. Ela pareceu combinar comigo. Logo que
pensei isso, a tatuagem desapareceu de meu peito, os olhos voltaram ao
normal e a sensação me abandonou.
Nesse
momento imaginei: “será que estou enlouquecendo?”. Coisas desse tipo não
acontecem na vida real! Olhei para o despertador ao lado da cama, eram 5h e 12
minutos. Voltei a deitar.
Acordei
antes de o relógio apitar, tomei um longo banho ignorando tudo o que aconteceu
durante a madrugada.
-
Vai querer carona para o colégio? - Gritou mamãe da porta do quarto.
-
Vou caminhando - respondi, pegando a toalha.
-
Ok - disse ela.
Coloquei
o uniforme do colégio: uma calça jeans e o básico all star preto de sempre. Pus minha mochila nas costas e saí de
casa. Na rua encontrei com Jennifer, ela parecia esperar por algo, acenou para
mim ao me ver. Retribui o aceno e segui adiante, antes de virar a esquina do
quarteirão de casa, dei uma breve olhada para trás: Kevin estacionara seu gol
G5 vermelho rebaixado em frente à casa da garota.
Os
dois passaram por mim segundos após eu virar a esquina, fiz questão de não
olhar. Aquele rapaz implicava comigo por qualquer coisa.
Chegando
ao colégio, fui diretamente para minha sala, eu era sempre o primeiro a entrar
desde que Deyvid foi embora. Porém, nesse dia não fui o primeiro, Jennifer já estava em seu lugar, apoiada
nos próprios braços, debruçada sobre a carteira,
parecia chorar. Encarei-a por alguns minutos,
queria saber o que havia acontecido, quase não estava me contendo para ir falar
com ela, mas uma voz em minha cabeça me lembrava de que aquela garota namorava com Kevin.
Em
um instante ela levantou a cabeça e olhou em minha direção, os olhos estavam
vermelhos e cheios de lágrimas. Quando decidi ir
falar com ela, sua melhor amiga, Sandy, apareceu atravessando a sala correndo.
-
O que houve? - Perguntou ela a Jennifer.
-
Nada - respondeu Jennifer soluçando. Ela sussurrou algo para a amiga que eu não
pude ouvir.
Quando
me dei conta o sinal já havia tocado e os alunos estavam quase todos em sala.
Antes de o professor chegar, minha boca começou a arder, de início ignorei tal queimação, porém, não tive como evitar: precisei beber água. Minha boca
parecia estar cheia de pimenta e a cada segundo que se passava a ardor
aumentava. Corri para o bebedouro em frente ao laboratório do colégio.
Quando
voltei para a sala o professor protestou porque cheguei
depois dele, me deu um rápido sermão e mandou que eu entrasse logo.
Passei um olhar rápido na direção de Jennifer, ela estava com a aparência bem
melhor.
Foi
só o professor começar a falar para a aula se tornar entediante para todos. Ninguém gostava
daquela matéria. Sociologia. Fiz o que geralmente fazia em todas as aulas,
coloquei meus fones de ouvido e ignorei a explicação. Só voltei a prestar
atenção quando uma garota me cutucou. O professor olhava para mim, seu humor
não parecia ser bom. Tirei os fones e me arrumei na cadeira.
-
Como disse a vocês, hoje passarei aquele trabalho que eu havia citado semana passada.
Vocês farão em dupla.
Toda
a sala comemorou após o anúncio do professor.
- Mas… - ele se interrompeu bebendo um gole de
água da sua garrafinha - serei eu quem irá escolher as duplas.
-
Não vai dar certo, professor... - reclamou uma garota que sentava ao meu lado.
-
Vai dar certo sim! Vocês terão uma oportunidade para fazer novas amizades - falou
ele. A garota bufou.
-
Vamos começar - disse o professor, num tom de voz mais alto. - Irei selecionar as
duplas aleatoriamente pelo número da chamada.
O
professor apoiou-se em sua mesa.
-
A primeira dupla será formada pelo número 1,
Adam Oliver, e o número 22, Jennifer Griffin.
Senti
certo arrepio quando ele disse o meu nome
seguido pelo de Jeniffer.
-
Depois de definir as duplas, sorteio os temas do
trabalho - explicou ele.
Jennifer
olhou para mim e deu um breve sorriso, percebi suas bochechas ficarem
vermelhas. Só havia uma coisa que eu conseguia pensar naquele momento: “agora
Kevin conseguiria o que sempre tentava fazer: brigar comigo”.
O
sinal tocou assim que os temas do trabalho foram sorteados. A professora de matemática chegou à
sala antes de o professor de sociologia sair.
Meus
olhos começaram a pesar, o sono queria me derrubar. Aguentei até o instante em
que a professora começou a explicar a matéria, depois disso, apaguei.
***
Eu estava amarrado em uma cadeira. A escuridão
era imensa à minha frente, não dava para enxergar nada a um palmo de distância. Percebi que uma corrente me prendia na cadeira.
Tentei de vários modos me soltar, nenhum deu
certo.
- Acha que
conseguirá se soltar? - Perguntou um homem, abrindo a porta ao meu lado. Não
consegui ver muito bem quem era, nem o estilo dele.
- Sua força não é
o bastante para quebrar as correntes - exclamou. - Você conseguiu fugir por
muito tempo, Adam, mas ninguém consegue escapar, sempre conseguimos encontrá-los.
Agora chegou sua hora. - O cara pegou
uma faca que estava em seu cinto e me apunhalou no peito.
Acordei assustado, eu ainda estava na sala de
aula, minhas mãos estavam unidas ao peito, no
local onde o homem me apunhalou no sonho, todos olhavam para mim de forma
estranha, percebi que Jennifer não se encontrava
na sala.
-Você
está bem? - Perguntou a professora, sua voz soava
extremamente alto. Afetou meus ouvidos. Não era só a voz dela que parecia alta demais, mas a de todos que estavam
conversando. As vozes começaram a se misturar em minha cabeça. Tapei os ouvidos
na tentativa de aliviar o reboliço, não funcionou.
Fechei
os olhos, respirei fundo, tentando manter a
calma. Senti aquela adorável sensação novamente, aos poucos a barulheira parou.
A professora repetiu a pergunta:
-
Você está bem? - respondi balançando a cabeça positivamente.
No
intervalo fiz o de sempre: comi meu lanche e fui para a biblioteca. Era lá que
eu passava o intervalo todos os dias após a partida de Deyvid.
Estava
tão entretido lendo um livro que me assustei quando alguém se sentou ao meu
lado.
-
O que você está lendo? - Perguntou Jennifer.
-Slam
- respondi.
-
Nunca ouvi falar - disse ela - fala sobre o quê?
-
Sobre um rapaz que engravidou a namorada e depois fugiu de casa acreditando que,
quando ele voltasse, aquilo nunca havia acontecido - expliquei.
-
Legal - disse ela - bom... Precisamos combinar um dia para fazermos o trabalho
de sociologia. Quando você está disponível?
-
Hoje tenho treino de boxe, depois eu e minha mãe sairemos para jantar fora,
então seria mais provável amanhã às 19h, depois do treino. Pode ser?
-
Pode, nesse horário já deu tempo de eu chegar da ginástica e tomar um banho.
-
Tem algum problema se fizermos na minha casa? -perguntei - é que estou meio de
castigo por causa da festa na casa da Joice, não posso sair à noite.
-
Pode ser - respondeu ela.
O
sinal para as aulas seguintes tocou, Jennifer e
eu seguimos lado a lado para a sala em silêncio,
sem trocar uma palavra.