A
sensação ficava melhor a cada segundo que se passava. Aos poucos minha dor de
cabeça foi desaparecendo, o embrulho que sentia no estômago
me fazendo querer vomitar mais deixara de
existir.
A
sensação foi diminuindo ao mesmo tempo em que
meus olhos perdiam a cor azul. Tudo havia
voltado ao normal, mas com uma diferença: eu não estava mais de ressaca.
A
primeira coisa que pensei foi em contar para minha mãe sobre o ocorrido. Mas imaginei:
quem acreditaria nisso? Ninguém, a única pessoa
que acreditaria em mim não está aqui no momento, neste caso, o melhor era
manter o fato em segredo, isso se não fosse
alguma ilusão produzida pelo álcool em meu sangue.
Saindo do meu banheiro, dei de cara
com o quarto todo bagunçado, a dor de cabeça estava tão forte quando cheguei
que nem reparei a zona que ele estava.
Ao
meu lado, pendurada ao saco de pancadas, havia uma camiseta do uniforme do
colégio. Mais à frente, no criado mudo, estavam os controles do meu PS2 com os fios embolados. Algumas
roupas tomavam conta da cama de casal, espalhadas pelo colchão. Não sei como
foram parar lá, mas as minhas luvas de boxe estavam penduradas na cesta de
basquete que fica acima da cabeceira da cama.
Alguns
bonés tomavam conta de minha raque, localizada embaixo da TV de 42 polegadas que era parafusada à parede. Uma tigela com resto de batatas fritas e um
copo de Coca-Cola estava no chão ao lado da cama. O tapete preto que fica entre
a cama e a raque da TV se encontrava lambuzado de ketchup.
Respirei
fundo, corri até meu guarda-roupa, desviando de toda a bagunça, e vesti uma
bermuda. Eu tinha muita coisa a fazer nesse cômodo. Antes de começar, desci até
a cozinha e comi uma tigela cheia de cereal. Mamãe estava lavando o carro.
Demorou
mais ou menos meia hora para eu arrumar todo o quarto. Vocês podem pensar que
joguei toda a roupa dentro do guarda-roupa sem ao menos arrumar, mas, na verdade, não! Fiz uma coisa mais fácil:
coloquei todas as vestes em um cesto para Magda lavar no dia seguinte.
Magda
era a empregada que mamãe contratou para os serviços mais complicados, como
lavar roupa, limpar a casa e fazer almoço para a
gente durante a semana. Vocês podem dizer: mas no
que a mãe desse garoto trabalha, para não fazer
nenhum desses serviços?
Na
verdade minha mãe herdou toda a riqueza de meu avô, o famoso Eduardo Oliver,
que foi proprietário da grande rede de postos de combustível Oliver. Ela herdou
ainda bens como propriedades e carros; alguns foram doados; outros, vendidos.
Enfim,
minha mãe passa a maior parte do tempo administrando
os postos. Sendo assim, não sobra muito tempo para
fazer serviços domésticos. Há dias em que nem
almoçar em casa ela vem. Um pouco, também, mamãe contratou Magda para tomar conta
de mim, mas é óbvio: quando eu era mais novo.
Hoje em dia isso não é necessário. Muito.
A
manhã passou tão rápido que só tive noção do tempo quando mamãe me chamou para
almoçar.
-
Como está seu estômago? - Perguntou ela desembrulhando
a marmita que comprara para nós num restaurante
na esquina de casa. - Não vomitou mais?
-
Como sabe que eu vomitei? - Questionei impressionado. - Pensei que você não tinha ouvido.
-
Fui levar seu celular até o quarto. Você havia deixado o
aparelho dentro do carro.
Mamãe
destampara a marmita.
-
O cheiro parece bom - concluiu ela aproximando o nariz à
comida.
Comemos
em silêncio após isso. Dei graças a Deus por ela não
engatilhar outro sermão.
***
À
noite eu não conseguia dormir muito bem, rolava de um lado para o outro na cama.
Eram quase 3h da manhã quando peguei no sono.
Aos poucos
algo como gotas começou a tocar minha pele,
primeiro apenas uma, depois uma após a outra, e mais rápido,
mais forte, gelado, só havia uma explicação para aquilo: chuva.
Lentamente abri meus olhos, eles
eram a única coisa que eu conseguia mover em meu corpo, todo o resto parecia
estar petrificado. Devagar, fitei o lugar em que estava. O chão era de areia, à
minha frente a água batia com força nas rochas. Só havia uma explicação óbvia: eu estava numa praia.
Aos poucos meus membros começaram a mostrar reação. Senti a
mão direita, em seguida, os pés, minha mão
esquerda logo após. Tudo voltara a funcionar. Sentei-me na areia fofa muito
rápido. O bastante para fazer minha cabeça girar. Meus olhos começaram a
vacilar, querendo se fechar. Lutei para mantê-los abertos. Concentrei-me no ar,
puxando-o para dentro de meus pulmões, enchendo
tudo de uma vez só, a seguir, soltei-o a uma
velocidade adequada.
O clima estava frio, todos os pêlos
de meu corpo se arrepiaram por causa das rajadas de vento que passaram sobre
mim. “Um abrigo”, pensei. Eu precisava de um
abrigo para me aquecer. Levantei com as pernas tremendo, não tive sucesso. Elas
vacilaram e caí. Mas não era na primeira vez que eu desistiria, levantei
novamente, consegui avançar uns dois passos, depois elas vacilaram outra vez, era como se ganhassem uma carga temporária
de energia e depois a perdessem completamente,
parando de funcionar no mesmo momento.
Na terceira tentativa consegui ir
mais longe, andei sete passos, cambaleando de um lado para o outro. No oitavo
passo as pernas quiseram ceder, mas resisti, continuei em pé, parado, mas
continuei. A cada caminhada que eu dava, minhas pernas pareciam ficar mais
firmes, aos poucos a tremedeira parou, mas o equilíbrio ainda estava abaixo do
normal. Às vezes sentia uma desequilibrada e
quase estava no chão de novo. Foi assim até ficar estável. Os movimentos agora
saíam quase perfeitos. Entretanto, eu tinha que me concentrar para isso, era como se meu cérebro não conseguisse operar duas
coisas ao mesmo tempo.
Com dificuldades, passei por algumas
pedras enormes que dividiam a praia do asfalto. Um estacionamento se destacava de
frente para a praia. Ao lado dele havia uma
cabana, não era grande, mas parecia suficiente
para me aquecer. Andando quase normalmente cheguei até o lugar desejado.
Empurrei a maçaneta da porta achando que ela abriria facilmente. Eu estava
enganado.
- Alguém? - Gritei, com a voz trêmula
por causa do frio. Esperei um instante, não houve
resposta. Bati na porta e gritei outra vez. Nada
de novo. Dei a volta pelo lado de fora da
cabana, olhei pela janela. Aquele lugar lembrava um
tipo de escritório. Havia uma mesa no
fundo do cômodo, um computador em cima da mesa, um tapete no centro e alguns armários perto das janelas.
Eu já sentia os dedos dos pés
adormecidos e gelados, estavam parecendo gelo. A
verdade era que meu corpo todo se assemelhava a gelo.
Eu morreria congelado. Somente uma bermuda que eu vestia não me aquecia o
bastante.
Não
pensei duas vezes: quebrei a vidraça do
escritório. O único obstáculo que encontrei foi pular a janela,
ela não era alta, mas também não queria dizer que era tão baixa e que eu
conseguiria pular, foi uma luta ficar em pé. Esse não era um motivo para eu
desistir, limpei os cacos de vidro que estavam espalhados por todos os lados e arrisquei um salto.
A
primeira tentativa foi em vão, meus braços vacilaram ao puxar o corpo para cima. Tentei novamente. Dessa vez tive um
pouco mais de sucesso, consegui visualizar mais
do escritório, mas não foi o suficiente para passar para o outro lado.
Foi
na terceira tentativa que tudo deu certo, subi na janela e caí do outro lado,
dentro do escritório. Já dava para sentir o ambiente mais quente. Fiquei alguns
segundos deitado no chão recuperando o fôlego.
Pular a janela me deixou exausto demais.
Quando
me levantei tive a pior sensação do mundo: era como se meu coração estivesse em
chamas e minha pele, em chamas. Não importava o
que eu fizesse para aliviar a sensação, ela não cedia.
Para
piorar a situação, parecia que alguém invisível estava furando
meu coração com agulhas. Não resisti ao sofrimento e apaguei.