Capitulo 2

A sensação ficava melhor a cada segundo que se passava. Aos poucos minha dor de cabeça foi desaparecendo, o embrulho que sentia no estômago me fazendo querer vomitar mais deixara de existir.
A sensação foi diminuindo ao mesmo tempo em que meus olhos perdiam a cor azul. Tudo havia voltado ao normal, mas com uma diferença: eu não estava mais de ressaca.
A primeira coisa que pensei foi em contar para minha mãe sobre o ocorrido. Mas imaginei: quem acreditaria nisso? Ninguém, a única pessoa que acreditaria em mim não está aqui no momento, neste caso, o melhor era manter o fato em segredo, isso se não fosse alguma ilusão produzida pelo álcool em meu sangue.
Saindo do meu banheiro, dei de cara com o quarto todo bagunçado, a dor de cabeça estava tão forte quando cheguei que nem reparei a zona que ele estava.
Ao meu lado, pendurada ao saco de pancadas, havia uma camiseta do uniforme do colégio. Mais à frente, no criado mudo, estavam os controles do meu PS2 com os fios embolados. Algumas roupas tomavam conta da cama de casal, espalhadas pelo colchão. Não sei como foram parar lá, mas as minhas luvas de boxe estavam penduradas na cesta de basquete que fica acima da cabeceira da cama.
Alguns bonés tomavam conta de minha raque, localizada embaixo da TV de 42 polegadas que era parafusada à parede. Uma tigela com resto de batatas fritas e um copo de Coca-Cola estava no chão ao lado da cama. O tapete preto que fica entre a cama e a raque da TV se encontrava lambuzado de ketchup.
Respirei fundo, corri até meu guarda-roupa, desviando de toda a bagunça, e vesti uma bermuda. Eu tinha muita coisa a fazer nesse cômodo. Antes de começar, desci até a cozinha e comi uma tigela cheia de cereal. Mamãe estava lavando o carro.
Demorou mais ou menos meia hora para eu arrumar todo o quarto. Vocês podem pensar que joguei toda a roupa dentro do guarda-roupa sem ao menos arrumar, mas, na verdade, não! Fiz uma coisa mais fácil: coloquei todas as vestes em um cesto para Magda lavar no dia seguinte.
Magda era a empregada que mamãe contratou para os serviços mais complicados, como lavar roupa, limpar a casa e fazer almoço para a gente durante a semana. Vocês podem dizer: mas no que a mãe desse garoto trabalha, para não fazer nenhum desses serviços?
Na verdade minha mãe herdou toda a riqueza de meu avô, o famoso Eduardo Oliver, que foi proprietário da grande rede de postos de combustível Oliver. Ela herdou ainda bens como propriedades e carros; alguns foram doados; outros, vendidos.
Enfim, minha mãe passa a maior parte do tempo administrando os postos. Sendo assim, não sobra muito tempo para fazer serviços domésticos. Há dias em que nem almoçar em casa ela vem. Um pouco, também, mamãe contratou Magda para tomar conta de mim, mas é óbvio: quando eu era mais novo. Hoje em dia isso não é necessário. Muito.
A manhã passou tão rápido que só tive noção do tempo quando mamãe me chamou para almoçar.
- Como está seu estômago? - Perguntou ela desembrulhando a marmita que comprara para nós num restaurante na esquina de casa. - Não vomitou mais?
- Como sabe que eu vomitei? - Questionei impressionado.  - Pensei que você não tinha ouvido.
- Fui levar seu celular até o quarto. Você havia deixado o aparelho dentro do carro.
Mamãe destampara a marmita.
- O cheiro parece bom - concluiu ela aproximando o nariz à comida.
Comemos em silêncio após isso. Dei graças a Deus por ela não engatilhar outro sermão.

***
À noite eu não conseguia dormir muito bem, rolava de um lado para o outro na cama. Eram quase 3h da manhã quando peguei no sono.
Aos poucos algo como gotas começou a tocar minha pele, primeiro apenas uma, depois uma após a outra, e mais rápido, mais forte, gelado, só havia uma explicação para aquilo: chuva. 
Lentamente abri meus olhos, eles eram a única coisa que eu conseguia mover em meu corpo, todo o resto parecia estar petrificado. Devagar, fitei o lugar em que estava. O chão era de areia, à minha frente a água batia com força nas rochas. Só havia uma explicação óbvia: eu estava numa praia.
Aos poucos meus membros começaram a mostrar reação. Senti a mão direita, em seguida, os pés, minha mão esquerda logo após. Tudo voltara a funcionar. Sentei-me na areia fofa muito rápido. O bastante para fazer minha cabeça girar. Meus olhos começaram a vacilar, querendo se fechar. Lutei para mantê-los abertos. Concentrei-me no ar, puxando-o para dentro de meus pulmões, enchendo tudo de uma vez só, a seguir, soltei-o a uma velocidade adequada.
O clima estava frio, todos os pêlos de meu corpo se arrepiaram por causa das rajadas de vento que passaram sobre mim. “Um abrigo”, pensei. Eu precisava de um abrigo para me aquecer. Levantei com as pernas tremendo, não tive sucesso. Elas vacilaram e caí. Mas não era na primeira vez que eu desistiria, levantei novamente, consegui avançar uns dois passos, depois elas vacilaram outra vez, era como se ganhassem uma carga temporária de energia e depois a perdessem completamente, parando de funcionar no mesmo momento.
Na terceira tentativa consegui ir mais longe, andei sete passos, cambaleando de um lado para o outro. No oitavo passo as pernas quiseram ceder, mas resisti, continuei em pé, parado, mas continuei. A cada caminhada que eu dava, minhas pernas pareciam ficar mais firmes, aos poucos a tremedeira parou, mas o equilíbrio ainda estava abaixo do normal. Às vezes sentia uma desequilibrada e quase estava no chão de novo. Foi assim até ficar estável. Os movimentos agora saíam quase perfeitos. Entretanto, eu tinha que me concentrar para isso, era como se meu cérebro não conseguisse operar duas coisas ao mesmo tempo.
Com dificuldades, passei por algumas pedras enormes que dividiam a praia do asfalto. Um estacionamento se destacava de frente para a praia. Ao lado dele havia uma cabana, não era grande, mas parecia suficiente para me aquecer. Andando quase normalmente cheguei até o lugar desejado. Empurrei a maçaneta da porta achando que ela abriria facilmente. Eu estava enganado.
- Alguém? - Gritei, com a voz trêmula por causa do frio. Esperei um instante, não houve resposta. Bati na porta e gritei outra vez. Nada de novo. Dei a volta pelo lado de fora da cabana, olhei pela janela. Aquele lugar lembrava um tipo de escritório. Havia uma mesa no fundo do cômodo, um computador em cima da mesa, um tapete no centro e alguns armários perto das janelas.
Eu já sentia os dedos dos pés adormecidos e gelados, estavam parecendo gelo. A verdade era que meu corpo todo se assemelhava a gelo. Eu morreria congelado. Somente uma bermuda que eu vestia não me aquecia o bastante.
Não pensei duas vezes: quebrei a vidraça do escritório. O único obstáculo que encontrei foi pular a janela, ela não era alta, mas também não queria dizer que era tão baixa e que eu conseguiria pular, foi uma luta ficar em pé. Esse não era um motivo para eu desistir, limpei os cacos de vidro que estavam espalhados por todos os lados e arrisquei um salto.
A primeira tentativa foi em vão, meus braços vacilaram ao puxar o corpo para cima. Tentei novamente. Dessa vez tive um pouco mais de sucesso, consegui visualizar mais do escritório, mas não foi o suficiente para passar para o outro lado.
Foi na terceira tentativa que tudo deu certo, subi na janela e caí do outro lado, dentro do escritório. Já dava para sentir o ambiente mais quente. Fiquei alguns segundos deitado no chão recuperando o fôlego. Pular a janela me deixou exausto demais.
Quando me levantei tive a pior sensação do mundo: era como se meu coração estivesse em chamas e minha pele, em chamas. Não importava o que eu fizesse para aliviar a sensação, ela não cedia.
Para piorar a situação, parecia que alguém invisível estava furando meu coração com agulhas. Não resisti ao sofrimento e apaguei.