Capitulo 4

A aula de física me deixava mais entediado do que as outras aulas. Era uma das matérias que eu não tirava nota boa, mas também não tirava nota ruim.
Em um momento de descuido da professora, faltando quinze minutos para o sinal tocar, peguei minha mochila e saí da sala. Sentia um pouco de dor de cabeça. Fui até o ginásio, lá deveria ser o local mais silencioso do colégio, claro, se nenhuma turma estivesse na aula de educação física.
Chegando ao ginásio, encontrei alguém que eu jamais imaginaria ver em uma quadra. Jennifer vestia uma roupa de balé, tinha o cabeço amarrado em um coque e dançava intensamente ao ritmo da música. Ela não me viu chegar, preferi não interrompê-la, dei meia volta e tentei sair do ginásio antes que me visse. Falhei.
- O que faz fora da sala de aula, mocinho? - Perguntou ela pausando a música.
- Estou com dor de cabeça - contei.
- Pede para ir embora - sugeriu.
- Não... Quero assistir a aula de inglês.
- Hum.
- Vou deixar você continuar sua dança - falei, andando de costas e apontando para o portão da quadra.
- Vou para a sala também… só tenho que trocar de roupa antes.
- A gente se vê lá então - eu disse, me afastando.
- Ok - respondeu ela.
No caminho até a sala, senti uma tontura, me apoiei na parede. Minha visão ficou embaçada, não conseguia enxergar direito.
Ouvi passos atrás de mim.
- Você está bem? - Perguntou uma pessoa que eu não consegui distinguir quem era.
- Estou - respondi com a voz baixa.
- Tem certeza? - Notei que a voz era de uma garota.
- Ahã - exclamei, com a tontura melhorando.
Levantei a cabeça e olhei para a pessoa que me fizera as perguntas, era uma das garotas da festa, tinha o cabelo loiro e a franja amarrada para trás, vestia a típica camisa do colégio e usava uma calça de tactel com um tênis da Nike.
- Só entrou um mosquito no meu olho - inventei uma desculpa.
- Posso dar uma olhada para você - ela se ofereceu, acreditando inocentemente.
- Não é necessário - respondi com um sorriso - já tirei.
Trocamos um olhar em silêncio.
 - É melhor eu ir para a sala - disse eu, dando um passo para trás. - De qualquer forma, obrigado.
- Você não se lembra de mim, não é? - Perguntou a garota com um semblante triste.
Fixei o olhar no rosto dela e tentei buscar alguma imagem sua no meu subconsciente, eu sabia que alguma coisa tinha acontecido entre a gente na festa, só não lembrava o quê.
- Você estava na festa da Joice - arrisquei ainda, tentando me lembrar.
- Você só se lembra disso? - Perguntou ela indignada.
- Eu estava chapado - exclamei - a última coisa de que me lembro é de ter…
Antes de eu completar a frase, me lembrei de algo sobre a festa que estava oculto em minha cabeça.
- Você é a garota que ficou comigo na festa da Joice! - Concluí ao me lembrar.
- Pelo menos isso, né? - Ela parecia chateada.
- Olha. Desculpe-me, mas você nunca bebeu tanto a ponto de não se lembrar de certas coisas?
- É, já aconteceu isso comigo também - confessou.
- Que tal começarmos outra vez? - Sugeri.
- Concordo - respondeu ela.
- Como é seu nome? - Perguntei.
- Larissa, e não precisa me dizer o seu que eu me lembro.
Antes que a gente pudesse conversar sobre mais alguma coisa, o sinal para a última aula tocou.
-Vou ter que ir para a sala agora - falei.
- Eu também.
Nos afastamos sem ao menos dizer “tchau”.
Durante a aula a dor de cabeça voltou a me atormentar. Fiquei em silêncio até tocar o sinal para ir embora.
Em casa só encontrei Magda, ela disse que mamãe ligou avisando que não viria para o almoço. Fiz o que sempre fazia quando ela não almoçava em casa: comi o que Magda preparou e deitei um pouco para descansar antes do treino. A dor de cabeça ainda me incomodava.
Acordei com o celular despertando no horário em que eu havia programado. Tinha dormido por volta de uma hora e meia. Foi o suficiente para curar minha dor de cabeça e tirar aquela tensão do corpo. Respirei fundo ao bocejar, senti o cheiro de poeira espalhado pelo ar, foi uma coisa extremamente estranha. Minha audição também parecia estar mais aguçada, eu ouvia o tic-tac do relógio na parede do quarto da minha mãe. Dei uma olhada rápida no espelho, a tatuagem de tribal estava estampada em meu peito novamente, percebi os olhos azuis outra vez. Senti uma onda de energia percorrer meu corpo, tive uma sensação de leveza no exato instante.
Minha atenção foi atraída pelo grito de Magda no andar de baixo da casa. Corri para a cozinha, onde ela estava.  Encontrei-a debruçada sobre a pia de lavar louça com a mão debaixo da torneira, o sangue misturado com água descia pelo ralo.
- O que aconteceu? - Perguntei assustado.
- Cortei a mão no cutelo - resmungou ela.
- Que diabos você estava fazendo com o cutelo?
- Estava cortando a carne que sua mãe trouxe do mercado ontem - explicou.
- Deixe-me ver como está sua mão? - Pedi.
Ela tirou a mão da água, um corte profundo se formou na palma da mão, e não parava de sangrar.
- Acredito que isso vai precisar de pontos - exclamei, avaliando a mão. -Vamos fazer o seguinte: enfaixaremos sua mão, ligarei para minha mãe e levarei você até o hospital.
- Pode deixar que eu me viro, só avisa sua mãe para mim.
-Tem certeza?
Ela balançou a cabeça positivamente.
- Você vai achar loucura, mas eu jurava que tinha uma tatuagem redonda no seu peito quando você desceu as escadas. Deve ter sido impressão - falou Magda, desaprovando o que acabara de falar.
- Com certeza… - falei um pouco inseguro. Mas, ao mesmo tempo, feliz, pois isso deixava claro que eu não estava ficando louco.
Com toda essa reviravolta perdi a noção do tempo, eu estava atrasado para o treino de boxe. Peguei meu equipamento, coloquei em uma mochila e saí correndo de casa. “Esse seria o primeiro treino sem Deyvid”, pensei.
Imaginando o que dizer para minha mãe sobre o que acontecera com Magda quase não percebi o que estava fazendo. Minhas pernas se moviam a uma velocidade inacreditável, pelos meus cálculos, eu corria a mais de 80 km por hora. O mais impressionante era que a respiração não se alterava, meu corpo não sentia o cansaço do exercício. Corri assim até chegar à academia.
No vestiário, Andrew, um dos lutadores, veio falar comigo.
- Ora, ora, olha quem ficou sem o namorado - provocou.
- Por que você não vai treinar para ver se um dia consegue me nocautear? - Retruquei.
- Ui... Tá nervosa a moça, é?
- Derrubo você no primeiro round e ainda com uma mão nas costas - rosnei.
- É o que veremos - disse ele saindo do vestiário.
Andrew era um dos lutadores que gostava de nos provocar, tinha inveja porque Deyvid formava dupla comigo sempre que nos enfrentávamos em dupla no ringue. Ele e Jimmy nunca venceram a gente.
Hoje seria treino coletivo. Todos os lutadores se enfrentariam no ringue. Quem ganhava, permanecia, isso até algum outro lutador ser capaz de derrotá-lo. Deyvid era o único que me vencia, e assim vice e versa. Esse era o motivo pelo qual alguns lutadores nos odiavam no treino.
O treinador forçou um pouco a barra nesse dia. Colocou-me para lutar contra Andrew na primeira luta.
- Agora eu te desafio, Oliver - disse Andrew enquanto entrávamos no ringue. - Duvido que consiga me derrotar com um dos braços nas costas. Honre o que disse para mim no vestiário.
Tive a sensação de que aquilo daria certo. Sendo assim, aceitei o desafio.
- Eu luto com uma das mãos nas costas, mas, se vencer, você nunca mais me enche o saco. Entendido?
- Entendido, mas só se eu escolher o braço que você usará na luta.
- Feito - concordei. - Qual braço você quer que eu não use?
- Você usará o esquerdo…
- Estão prontos? - Perguntou o treinador.
- Sim - respondemos ao mesmo tempo.
O treinador soou o gongo e a luta começou. Como combinado, coloquei o braço direito nas costas.
- O que está fazendo, Adam? - Perguntou o treinador Jefferson. 
- Provando do que sou capaz - respondi.
Andávamos de um lado para o outro apenas nos encarando. A indecisão tomou conta dos olhos de Andrew, ele não sabia se atacava ou ficava na defensiva.
Resolvi dar um passo à frente e acertar o primeiro golpe, tentei um gancho de esquerda. Não funcionou. Andrew se esquivou e me acertou um cruzado de direita. Cambaleei pelo ringue até o canto, me apoiando nas cordas. Isso foi fatal, Andrew me prendeu, ele investia golpes no lado direito de meu abdômen, a parte de meu corpo que estava desprotegida. Tentei a tática que sempre usava contra Deyvid: comecei a bloquear os golpes com o ombro direito e, em seguida, atacava dando um gancho de esquerda. Não estava funcionando. Eu não conseguia reagir.
Andrew passou do abdômen para meu rosto, tentei me defender apenas com o braço esquerdo, mas isso se tornava impossível a cada golpe que ele me dava. Fiquei zonzo, ao ver minha reação, ele tentou um gancho para me nocautear, quase apaguei. Caí agachado, cambaleando de um lado para o outro, consegui forças para levantar, ele me acertou de novo, me levando à lona. De olhos fechados, ouvi os outros lutadores iniciarem a contagem.
Reuni as forças que ainda me restavam e levantei. Andrew me jogou no canto novamente, fiquei apenas me protegendo, em um momento não resisti, levantei a mão direita, desferindo um gancho. O garoto tonteou, tentou me acertar, me esquivei e acertei mais um de esquerda, e outro em seguida. Quando fui acertar o golpe final ele se esquivou segurando meu braço e me jogando à lona.
-Você não honra o que diz, Oliver - gritou ele. Isso foi o fim da picada. Uma raiva brotou em mim, senti aquela energia percorrer dentro de meu corpo novamente. 
Levantei-me seguindo em direção a Andrew, ele tentou me acertar, desviei de seu golpe dando um giro para o lado, quando ele se virou para mim, desferi um soco em seu peito. A força do golpe foi tão grande que Andrew foi arremessado para fora do ringue. Todos me olharam de boca aberta.